Por Adriano Moitinho
O que Angicos pode ensinar a Itaparica sobre escola, tecnologia e vontade de aprender
Em 1963, um grupo de educadores chegou a uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte para enfrentar um problema gigantesco.
A cidade se chamava Angicos.
Muitos adultos não sabiam ler nem escrever.
Seria possível chegar ali com cartilhas prontas.
Começar pelo alfabeto.
Repetir sílabas.
Mandar copiar palavras.
Mas aconteceu algo diferente.
Antes de ensinar aquelas pessoas a ler o mundo escrito, os educadores tentaram descobrir qual era o mundo que aquelas pessoas já sabiam ler.
Conversaram.
Ouviram.
Investigaram seu vocabulário.
Descobriram palavras que faziam parte da vida cotidiana.
Belota.
Povo.
Voto.
Salina.
Feira.
Milho.
Goleiro.
Cozinha.
Palavras simples.
Mas havia algo extraordinário nelas.
Elas já pertenciam aos alunos antes de pertencerem à aula.
A partir daquele universo, construía-se a aprendizagem.
A experiência ficaria conhecida como as 40 horas de Angicos.
Mais de seis décadas depois, talvez valha fazer um experimento imaginário.
Vamos retirar Paulo Freire de 1963.
Colocá-lo em 2026.
Entregar-lhe um smartphone.
E trazê-lo para uma ilha na Bahia.
Itaparica.
O que ele encontraria?
Talvez entrasse numa escola e encontrasse algo aparentemente contraditório.
Jovens com dificuldade para permanecer atentos durante uma aula.
Mas capazes de permanecer horas diante de uma tela.
Alunos aparentemente desinteressados por determinados conteúdos escolares.
Mas extraordinariamente interessados em vídeos, jogos, música, redes sociais, relacionamentos, futebol, dinheiro, consumo, trabalho e tecnologia.
Alguns talvez não consigam explicar determinado conteúdo curricular.
Mas sabem editar um vídeo.
Encontrar alguma coisa na internet.
Aprender os códigos de um jogo.
Usar aplicativos que um adulto demora para compreender.
Circular por diferentes linguagens digitais quase intuitivamente.
Então talvez Paulo Freire não começasse perguntando:
“Por que esses jovens não querem aprender?”
Talvez fizesse outra pergunta:
“O que eles estão tentando aprender quando ninguém está ensinando?”
Angicos começou ouvindo
Essa talvez seja uma das partes mais poderosas daquela experiência.
Antes das palavras geradoras existiu uma investigação do universo vocabular.
Era preciso conhecer o mundo dos educandos.
Porque educação não começa necessariamente naquilo que o professor deseja dizer.
Pode começar naquilo que permite ao aluno perceber:
isso tem alguma coisa a ver comigo.
Esse princípio sobrevive perfeitamente à tecnologia.
Aliás, talvez seja ainda mais necessário por causa dela.
Em 1963, uma palavra como “belota” podia abrir uma porta para a alfabetização porque fazia parte do universo cultural de Angicos.
Quais seriam as palavras geradoras de um adolescente de Itaparica em 2026?
Talvez:
WhatsApp.
Pix.
TikTok.
Inteligência artificial.
Dinheiro.
Emprego.
Turismo.
Mar.
Música.
Futebol.
Salvador.
Bica.
Futuro.
A lista certamente estaria incompleta.
E justamente por isso não deveria ser elaborada apenas por adultos numa sala.
Deveríamos perguntar aos jovens.
Porque existe algo que não combina
Itaparica possui hoje uma estrutura educacional que impressiona.
O Colégio Estadual de Tempo Integral Ernesto Carneiro Ribeiro recebeu um novo complexo inaugurado em 2024, com dezenas de salas, laboratórios, biblioteca, teatro, restaurante estudantil, quadra coberta, piscina semiolímpica, campo society e pista de atletismo.
É um investimento público relevante.
E deve ser reconhecido como tal.
Mas existe uma distinção fundamental:
infraestrutura educacional não é aprendizagem.
Ela cria condições para que a aprendizagem aconteça.
Não garante que aconteça.
Os indicadores ajudam a mostrar o tamanho do desafio.
No IDEBA de 2024 — índice estadual alimentado pelos resultados do SABE — o Colégio Estadual de Tempo Integral Ernesto Carneiro Ribeiro registrou 2,49.
O resultado é posterior à inauguração do novo complexo, em fevereiro daquele ano.
Ainda assim, um indicador isolado não permite atribuir o desempenho apenas à infraestrutura.
A pergunta correta continua sendo:
O que faremos com essa estrutura agora?
A escola pode estar cheia e a educação vazia
Em comunidades como a nossa, escutamos relatos preocupantes.
Há quem diga que alguns estudantes frequentam a escola principalmente pela alimentação.
Outros mencionam benefícios financeiros vinculados à permanência escolar.
Também existem críticas sobre motivação, frequência, aprendizagem e progressão dos alunos.
Esses relatos precisam ser investigados.
Não devem ser transformados automaticamente em estatística.
Mas também não deveriam ser desprezados simplesmente porque são relatos.
Há uma pergunta legítima escondida neles.
O que mantém um jovem dentro da escola?
Alimentação escolar é importante.
Programas de transferência de renda podem ser decisivos para famílias vulneráveis.
Políticas de permanência podem impedir que adolescentes abandonem os estudos para trabalhar precocemente.
Tudo isso possui função social.
Mas precisamos distinguir duas coisas.
Colocar o aluno dentro da escola é uma política de permanência.
Fazer alguma coisa intelectualmente transformadora acontecer depois que ele entrou é educação.
Uma coisa não substitui a outra.
Talvez estejamos discutindo Paulo Freire da maneira errada
Poucos educadores brasileiros foram transformados em símbolos políticos com tanta intensidade quanto Paulo Freire.
Para alguns, tornou-se quase intocável.
Para outros, tornou-se responsável por problemas educacionais que muitas vezes jamais tiveram relação concreta com seu método.
O resultado é curioso.
Enquanto um lado precisa transformá-lo em herói e o outro precisa transformá-lo em vilão, deixamos de fazer uma pergunta muito mais útil:
O que podemos aprender com aquilo que funcionou em Angicos?
Não precisamos concordar com cada posição filosófica ou política de Paulo Freire para reconhecer uma ideia pedagógica poderosa.
Pessoas aprendem melhor quando conseguem estabelecer relações entre aquilo que estão aprendendo e o mundo que conhecem.
Isso não deveria ser de esquerda.
Nem de direita.
Deveria ser uma questão de educação.
E se Matemática começasse no Pix?
Imagine uma aula de Matemática em Itaparica.
O professor poderia começar por uma fórmula no quadro.
Ou poderia começar com uma pergunta:
“Se você receber R$ 1.000 hoje, quanto realmente consegue comprar?”
Daí surgem porcentagem.
Inflação.
Juros.
Parcelamento.
Desconto.
Orçamento.
Crédito.
Investimento.
Dívida.
Empreendedorismo.
A Matemática não desapareceu.
Pelo contrário.
Ela ganhou realidade.
E se Português começasse no WhatsApp?
Pegue uma mensagem mal escrita.
Uma propaganda.
Uma notícia falsa.
Um roteiro de vídeo.
Uma discussão numa rede social.
Uma tentativa de golpe.
Um anúncio de emprego.
Um currículo.
Um prompt enviado a uma inteligência artificial.
Quantas aulas de Língua Portuguesa existem ali?
Interpretação.
Argumentação.
Pontuação.
Semântica.
Persuasão.
Gêneros textuais.
Leitura crítica.
Produção de texto.
A língua portuguesa já está dentro do smartphone.
Talvez a escola precise mostrar ao estudante que aquilo também é Português.
E se História começasse em Itaparica?
Antes de estudar grandes processos históricos distantes, poderíamos perguntar:
Quem viveu aqui?
Por que esta ilha foi estratégica?
O que o Forte de São Lourenço tem a contar?
Quem foi Maria Felipa?
Como a Baía de Todos-os-Santos participou da formação econômica brasileira?
Como escravidão, independência, comércio, religião e poder atravessaram este território?
Então o aluno descobriria algo importante.
História não aconteceu apenas nos livros.
Ele mora dentro dela.
E depois de compreender a história que existe ao seu redor, talvez esteja mais preparado para compreender aquela que aconteceu a milhares de quilômetros.
E se Geografia começasse olhando pela janela?
Itaparica possui mar.
Turismo.
Manguezais.
Mobilidade.
Comércio.
Patrimônio.
Desigualdade.
Saneamento.
Urbanização.
Meio ambiente.
Emprego.
Transporte.
Existe praticamente um currículo inteiro fora dos muros da escola.
O território pode se transformar em laboratório.
O aluno pode mapear problemas.
Coletar dados.
Fotografar.
Entrevistar moradores.
Construir gráficos.
Produzir mapas.
Comparar indicadores.
Propor soluções.
A ilha deixa de ser apenas o lugar onde ele mora.
Transforma-se em objeto de conhecimento.
E então entra a inteligência artificial
Aqui precisamos tomar cuidado.
A pior maneira de introduzir inteligência artificial na escola seria transformá-la numa máquina de fazer trabalhos escolares.
“Escreva minha redação.”
“Responda estas perguntas.”
“Faça meu resumo.”
Isso produziria exatamente o problema que discutimos anteriormente:
tecnologia utilizada para evitar pensar.
Mas existe outra possibilidade.
Imagine alunos utilizando IA para investigar problemas reais de Itaparica.
Comparar dados públicos.
Construir hipóteses.
Aprender programação.
Analisar informações.
Criar campanhas.
Desenvolver pequenos sistemas.
Simular negócios.
Produzir documentários.
Questionar fontes.
Encontrar contradições.
Construir argumentos.
Nesse modelo, a IA não substitui o professor.
Nem substitui o estudante.
Ela amplia aquilo que ambos conseguem investigar.
Talvez o smartphone não seja o inimigo
Existe uma tentação compreensível de olhar para o telefone na mão do adolescente como adversário da educação.
Afinal, ele disputa atenção.
Interrompe.
Distrai.
Vicia.
Pode transformar uma aula numa batalha permanente.
Tudo isso é real.
Mas existe outra maneira de olhar para o mesmo objeto.
Aquele aparelho contém câmera.
Microfone.
Editor de vídeo.
Calculadora.
Mapa.
Biblioteca.
Enciclopédia.
Tradutor.
Laboratório de programação.
Ferramentas de criação.
Acesso a cursos.
E agora inteligência artificial.
Talvez tenhamos colocado nas mãos de uma geração o instrumento educacional potencialmente mais poderoso da história...
e ainda estejamos discutindo apenas como fazê-la guardar o telefone durante a aula.
TecnoMimética aplicada à educação
É aqui que a ideia de TecnoMimética pode ultrapassar empresas e processos comerciais.
Tecnologia não transforma uma realidade simplesmente porque foi instalada nela.
Uma escola não se torna inovadora porque ganhou computadores.
Uma sala não se torna digital porque possui uma tela.
Um aluno não se torna tecnologicamente competente porque possui smartphone.
Transformação acontece quando tecnologia, comportamento humano e propósito começam a trabalhar juntos.
Na educação, isso significa algo importante:
não basta levar tecnologia para o mundo do aluno.
Precisamos aprender a partir do mundo tecnológico em que o aluno já vive.
Isso é diferente.
Um experimento para Itaparica
E se fizéssemos algo pequeno?
Não uma reforma educacional.
Não mais um grande programa.
Um experimento.
Escolher uma turma.
Conversar com os estudantes.
Descobrir seu universo tecnológico, cultural e econômico.
Perguntar o que desejam aprender.
Perguntar do que têm medo.
Perguntar como imaginam o próprio futuro.
Perguntar o que pensam de Itaparica.
E então construir projetos interdisciplinares partindo dessas respostas.
Matemática.
Português.
História.
Geografia.
Ciências.
Tecnologia.
Inteligência artificial.
Empreendedorismo.
Tudo conectado a problemas reais.
Mediríamos presença.
Engajamento.
Produção.
Aprendizagem.
E compararíamos resultados.
Talvez funcione.
Talvez não.
Mas existe uma diferença fundamental entre essa experiência e muitas discussões sobre educação:
teríamos dados.
De Angicos para Itaparica
Paulo Freire não possuía smartphone em 1963.
Não conheceu ChatGPT.
Não viu TikTok.
Não utilizou WhatsApp.
Não poderia imaginar um adolescente carregando no bolso acesso instantâneo a boa parte do conhecimento humano.
Mas talvez reconhecesse imediatamente o problema.
Porque a tecnologia mudou.
O princípio não.
Antes de perguntar como ensinar alguém, precisamos fazer um esforço para compreender quem é esse alguém e qual mundo ele habita.
Em Angicos, isso significou caminhar pelas ruas e descobrir palavras.
Em Itaparica, talvez signifique também entrar no universo digital dos jovens.
Não para permanecer nele.
Mas para começar por ele.
E levá-los além.
Porque talvez o objetivo da educação nunca tenha sido arrancar o aluno do seu mundo para colocá-lo no nosso.
Talvez seja ajudá-lo a compreender suficientemente o próprio mundo para descobrir que existem muitos outros.
Por isso, se Paulo Freire desembarcasse hoje em Itaparica, talvez não começasse pedindo aos jovens que desligassem seus smartphones.
Talvez pegasse um deles.
Olharia para aquela pequena tela.
Perguntaria ao aluno o que ele faz ali.
Escutaria.
E então faria aquilo que fez em Angicos.
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