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TecnoMimética: o que é, como funciona e por que você já está praticando sem saber

Por Adriano Moitinho Vivemos cercados por sistemas digitais, algoritmos e inteligências artificiais. Mas algo mais profundo está acontecendo do que simplesmente "usar tecnologia": estamos aprendendo a pensar, trabalhar e decidir segundo a lógica das máquinas, enquanto essas mesmas máquinas são construídas para imitar cada vez mais o nosso jeito de falar, escolher, julgar e interagir. É nesse ponto que surge a Tecnomimética , conceito que desenvolvi para propor uma lente mais precisa do que apenas "impactos da tecnologia": olhar para os processos de co-imitação entre humanos e tecnologias. O que é Tecnomimética Na formulação que proponho, a tecnomimética pode ser resumida assim: é o estudo dos processos de co-imitação entre humanos e tecnologias — como nós passamos a imitar a lógica das máquinas, ao mesmo tempo em que construímos máquinas para imitar aspectos humanos. Essa definição traz três ideias centrais. Primeiro, não é só "uso de tecnologia...

Ditadura, memória e coerência política: a história da minha família

Por Adriano Moitinho

Fotografias antigas que representam memória familiar e história

Durante muito tempo evitei escrever sobre a forma como a ditadura militar atingiu minha família. Não porque essa história fosse pouco importante, mas porque algumas lembranças continuam doendo mesmo quando pertencem à infância.

Eu era criança. O que ficou em mim não é uma cronologia perfeita, nem a pretensão de explicar sozinho um período tão complexo. Ficaram fragmentos: conversas interrompidas, nomes ditos com cuidado, ausências e a sensação de que certos assuntos podiam colocar pessoas em perigo.

Hoje consigo separar duas dimensões. Uma é a memória que chegou até mim pela família. A outra é aquilo que documentos, pesquisas e instituições registraram. Escrever com honestidade exige dizer isso claramente: esta é uma história pessoal, mas não é apenas uma impressão pessoal.

Dois nomes da minha família

Francisco Pinto, o Chico Pinto, era irmão do meu pai. Foi prefeito de Feira de Santana e deputado federal pela Bahia. Tornou-se uma das vozes de oposição ao regime militar dentro do Congresso. Foi perseguido e preso por enfrentar um regime de exceção. Mesmo sem afirmar tortura física, a prisão política, a ameaça permanente e a convivência com um Estado que censurava, torturava e matava opositores constituíam uma forma profunda de violência psicológica e institucional.

Há uma lembrança familiar que dá dimensão humana a essa história. Quando foi preso, lembro que tio Chico usava bigode. Saiu da prisão barbudo e nunca mais retirou a barba. Dizia que só voltaria a fazê-lo quando houvesse justiça social no Brasil. Morreu barbudo. A barba deixou de ser apenas aparência: tornou-se memória, protesto silencioso e lembrança de uma promessa que, para ele, o país nunca chegou a cumprir.

Vitorino Alves Moitinho era primo da minha mãe. Tinha 24 anos quando foi morto, em 27 de outubro de 1973, ao lado de outros militantes, no episódio que ficou conhecido como Chacina da Praça da Sentinela, no Rio de Janeiro. Durante décadas, famílias como a nossa conviveram não apenas com a perda, mas também com informações incompletas e versões oficiais que escondiam a violência praticada pelo Estado.

Esses fatos não são abstrações para mim. Quando se fala em prisão política, tortura, desaparecimento ou morte, não estou diante apenas de um capítulo de livro. Estou falando de pessoas que pertenciam à história da minha família.

Memória não é filiação partidária

Carregar essa história não me obriga a entregar minha consciência a um partido ou a uma ideologia. Eu não preciso ignorar abusos cometidos por governos de esquerda para provar que condeno a ditadura de direita. Também não preciso minimizar a corrupção ou a incompetência de determinados grupos para honrar quem enfrentou o autoritarismo.

Da mesma forma, rejeitar erros e desvios da esquerda não me aproxima de discursos que relativizam tortura, defendem fechamento de instituições ou tratam a ditadura como um período de ordem. Não existe coerência em combater um autoritarismo enquanto se flerta com outro.

Minha posição é menos confortável do que a fidelidade automática a um campo político: não aceito que a memória da minha família seja transformada em procuração permanente para ninguém.

A dificuldade de não pertencer a uma torcida

A política contemporânea costuma exigir respostas simples: de que lado você está? Esquerda ou direita? Herói ou inimigo? Leal ou traidor?

Mas a vida real não cabe bem nessas caixas. É possível defender justiça social e responsabilidade fiscal. É possível denunciar a violência do Estado e exigir segurança pública. É possível combater corrupção sem aceitar perseguição política. É possível respeitar a fé sem usar Deus como instrumento eleitoral.

Isso não é falta de posição. É a tentativa de preservar critérios que continuem válidos quando o governante, o partido ou o grupo de nossa preferência muda.

Quando passamos a imitar a lógica dos algoritmos

Há também uma dimensão tecnomimética nessa discussão. As plataformas digitais classificam, agrupam e recomendam. Seus algoritmos são alimentados por reações rápidas, certezas absolutas e conflitos que mantêm as pessoas conectadas.

Com o tempo, começamos a imitar essa lógica. Reduzimos seres humanos a rótulos, respondemos antes de compreender e passamos a tratar qualquer nuance como fraqueza. Em vez de usar a tecnologia para ampliar nossa compreensão, adotamos o comportamento binário das máquinas: zero ou um, amigo ou inimigo, esquerda ou direita.

A memória familiar resiste a essa simplificação. Ela me lembra que decisões políticas atravessam casas, separam famílias e deixam consequências que nenhum slogan consegue reparar.

O que a história exige de nós

Democracia não é concordância permanente. É o compromisso de resolver conflitos sem tortura, censura, perseguição e eliminação do adversário. É aceitar imprensa livre, devido processo legal, eleições legítimas, limites institucionais e fiscalização do poder — inclusive quando o fiscalizado é alguém em quem votamos.

Memória também não deve servir para alimentar vingança. Sua função é impedir que o sofrimento seja apagado, distorcido ou repetido. Honrar quem sofreu significa construir instituições nas quais ninguém precise sofrer o mesmo, independentemente de sua ideologia.

Não escrevo estas linhas para reivindicar superioridade moral. Tenho minhas contradições, meus julgamentos e minhas indignações. Escrevo porque a transparência também exige revelar de onde vêm algumas de minhas posições.

Minha coerência possível

A história de Chico Pinto e Vitorino Moitinho faz parte de mim. Ela me tornou desconfiado de discursos que concentram poder, justificam abusos ou pedem silêncio em nome de uma causa maior.

Não considero que democracia, dignidade humana, responsabilidade pública e combate à corrupção pertençam à esquerda ou à direita. São compromissos que deveriam limitar todos os governos e orientar todos os cidadãos.

Talvez essa seja a forma mais honesta que encontrei de preservar a memória da minha família: não transformá-la em arma partidária, mas em um compromisso permanente com a liberdade, a verdade e a responsabilidade.

Fé na vida. Fé em Deus.

Por que este texto está na TecnoMimética?

Porque compreender como algoritmos, plataformas e ambientes políticos moldam nosso comportamento é parte do estudo da co-imitação entre humanos e tecnologias. Preservar humanidade, nuance e responsabilidade também é Mentalidade Digital.

Entenda o que é TecnoMimética

Fontes e referências

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Adriano Moitinho
Desenvolvedor do campo conceitual da TecnoMimética e especialista em Mentalidade Digital.

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