Por Adriano Moitinho
Enquanto aprendíamos a usar as máquinas, elas aprendiam a nos ler
Durante milhares de anos, os seres humanos observaram as máquinas.
O agricultor precisava conhecer o arado.
O artesão precisava conhecer suas ferramentas.
O motorista precisava conhecer o automóvel.
O programador precisava conhecer o computador.
As máquinas não precisavam conhecer ninguém.
Um martelo não precisava saber quem segurava seu cabo. Um automóvel não precisava conhecer as opiniões políticas de seu motorista. Uma calculadora não precisava descobrir se seu proprietário estava triste.
Então alguma coisa mudou.
No início do século XXI, bilhões de pessoas começaram a carregar máquinas no bolso.
Nós as chamamos de smartphones.
Pensávamos que estávamos aprendendo a utilizá-las.
Enquanto isso, elas aprendiam a nos utilizar como fonte de dados.
O maior questionário da história
Imagine que uma empresa lhe entregasse um formulário com algumas perguntas:
A que horas você acorda?
Onde trabalha?
Quem são seus amigos?
De quem você sente saudade?
Que pessoas você admira?
Quais pessoas detesta?
Que tipo de corpo considera bonito?
Que doenças teme?
Quanto dinheiro possui?
O que gostaria de comprar?
Em quem provavelmente votaria?
O que o deixa com raiva?
O que consegue mantê-lo olhando para uma tela durante quarenta minutos sem perceber o tempo passar?
Provavelmente você se recusaria a responder algumas delas.
Talvez muitas.
No entanto, durante anos, respondemos a quase todas.
Não com palavras.
Com comportamento.
Cada busca era uma resposta.
Cada curtida era uma resposta.
Cada compra era uma resposta.
Cada localização era uma resposta.
Cada vídeo abandonado também era uma resposta.
Nunca houve formulário.
Por isso talvez não tenhamos percebido que estávamos preenchendo um.
O algoritmo não precisava saber nosso nome
Durante muito tempo, imaginamos privacidade como a proteção de informações pessoais.
Nome.
CPF.
Endereço.
Telefone.
Mas para prever comportamento, uma máquina nem sempre precisa saber quem você é.
Ela precisa descobrir com quem você se parece.
Se milhares de pessoas que apresentaram determinado padrão fizeram determinada escolha, alguém que apresente padrão semelhante talvez faça escolha semelhante.
É estatística.
Mas, quando aplicada a bilhões de seres humanos, a estatística começa a parecer assustadoramente pessoal.
O sistema percebe que você provavelmente gostará de uma música antes de ouvi-la.
Que poderá comprar determinado produto.
Que certo vídeo prenderá sua atenção.
Que determinada manchete aumentará a chance de você clicar.
E então acontece algo fundamental.
A máquina deixa de apenas registrar nossas escolhas.
Começa a escolher aquilo que será colocado diante de nós.
A internet prometeu uma janela para o mundo
E entregou.
Podemos assistir a uma aula produzida a milhares de quilômetros.
Consultar bibliotecas sem sair de casa.
Conversar instantaneamente com pessoas que jamais encontraríamos fisicamente.
A humanidade construiu a maior infraestrutura de circulação de informação de sua história.
Mas havia um problema.
Informação infinita cria uma escassez nova:
atenção.
Se existem dez vídeos disponíveis, podemos escolher.
Se existem dez bilhões, alguém precisa ajudar a escolher.
Chamamos esse alguém de algoritmo.
Parecia uma solução técnica.
Não era apenas isso.
Quem escolhe aquilo que merece nossa atenção adquire influência sobre a maneira como percebemos o mundo.
E descobrimos uma coisa desagradável sobre nós mesmos
Seres humanos gostam de informação.
Mas também gostam de indignação.
Medo.
Conflito.
Escândalo.
Confirmação.
Pertencimento.
Um sistema não precisa possuir opinião política para descobrir isso.
Não precisa odiar.
Não precisa amar.
Não precisa sequer compreender o significado de uma discussão.
Precisa apenas perceber que determinado conteúdo produz mais cliques, comentários, compartilhamentos ou minutos de permanência.
E otimizar.
Essa é uma distinção importante.
Uma máquina não precisa desejar dividir seres humanos para aprender que seres humanos divididos podem produzir excelentes métricas de engajamento.
É nesse ponto que a provocação apresentada em Nexus, de Yuval Noah Harari, se torna particularmente desconfortável.
As redes de informação aproximaram pessoas.
Os algoritmos aprenderam sobre elas.
E a mesma infraestrutura capaz de conectar bilhões também adquiriu capacidade de descobrir exatamente quais diferenças conseguem separá-los.
Mas essa história acaba de ganhar um novo capítulo.
O algoritmo começou a falar
Durante anos, algoritmos observaram nossas escolhas silenciosamente.
Você clicava.
Eles registravam.
Você assistia.
Eles mediam.
Você comprava.
Eles aprendiam.
A relação era desigual, mas relativamente simples.
Então apareceu uma caixa de texto.
E nós começamos a conversar com a máquina.
No início pedimos coisas pequenas.
“Corrija esta frase.”
“Resuma este documento.”
“Escreva este e-mail.”
“Explique esta matéria.”
Depois as perguntas ficaram maiores.
“Analise minha empresa.”
“Onde estou errando?”
“Compare estas alternativas.”
“Ajude-me a tomar esta decisão.”
“Questione meu raciocínio.”
“Construa este projeto comigo.”
Algo extraordinário havia acontecido.
A máquina que ontem tentava prever nosso próximo clique começou a participar da construção do nosso próximo pensamento.
Isso muda tudo
Um algoritmo de recomendação influencia aquilo que você vê.
Uma inteligência artificial conversacional pode influenciar aquilo que você considera.
A diferença parece pequena.
Não é.
Durante séculos utilizamos máquinas principalmente para ampliar capacidades físicas.
Depois criamos máquinas para ampliar cálculo, memória e processamento.
Agora começamos a construir máquinas que participam de atividades cognitivas que associávamos diretamente ao pensamento humano.
Escrever.
Analisar.
Comparar.
Argumentar.
Programar.
Criar.
Planejar.
Conversar.
Isso não transforma a máquina em ser humano.
Mas transforma profundamente a relação do ser humano com a máquina.
Pela primeira vez, milhões de pessoas possuem acesso cotidiano a um interlocutor artificial capaz de produzir respostas intelectualmente úteis em segundos.
É uma oportunidade extraordinária.
E exatamente por isso merece cuidado extraordinário.
O melhor assistente seria aquele que conhece você?
Provavelmente.
Imagine duas inteligências artificiais.
A primeira não sabe absolutamente nada sobre sua vida, seu trabalho ou seus objetivos.
A segunda conhece seus projetos, decisões anteriores, preferências, limitações, documentos, processos e metas.
Qual delas poderia ajudá-lo melhor?
Provavelmente a segunda.
Agora faça outra pergunta.
Qual delas poderia influenciá-lo melhor?
Provavelmente a segunda também.
Esse é um dos paradoxos centrais da inteligência artificial personalizada.
Quanto mais contexto entregamos, maior tende a ser a utilidade.
E quanto maior a capacidade de compreender nosso contexto, maior também pode ser a capacidade de influenciar nossas escolhas.
Não existe necessariamente algo sinistro nisso.
Um professor influencia.
Um livro influencia.
Um amigo influencia.
Um consultor influencia.
A diferença é que estamos começando a construir interlocutores artificiais potencialmente disponíveis vinte e quatro horas por dia, capazes de processar volumes gigantescos de informação e de adaptar respostas ao contexto do usuário.
Isso exige uma competência que nenhuma atualização de software pode instalar automaticamente.
Critério.
Talvez o perigo não seja uma IA que pense como nós
Há décadas imaginamos máquinas inteligentes em histórias de ficção científica.
Quase sempre fazemos a mesma pergunta:
O que acontecerá quando as máquinas conseguirem pensar?
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
Existe outra possibilidade.
As máquinas podem ficar extraordinariamente boas em nos ajudar a pensar justamente quando os seres humanos começam a considerar cansativo pensar sozinhos.
Então o problema não será uma inteligência artificial adquirir pensamento humano.
Será o ser humano entregar voluntariamente seu julgamento.
Há uma diferença enorme entre pedir:
“Ajude-me a pensar.”
e dizer:
“Pense por mim.”
A primeira frase descreve ampliação.
A segunda descreve dependência.
É aqui que entra a Mentalidade Digital
Mentalidade Digital não é conhecer todas as ferramentas.
Isso seria impossível.
As ferramentas de hoje serão substituídas.
Modelos melhores aparecerão.
Interfaces desaparecerão.
Empresas nascerão e morrerão.
Mentalidade Digital é outra coisa.
É compreender suficientemente a transformação para continuar exercendo autonomia dentro dela.
Utilizar IA sem venerá-la.
Questioná-la sem rejeitá-la.
Automatizar aquilo que não precisa permanecer manual.
Preservar humano aquilo que não deveria ser terceirizado.
E saber distinguir uma coisa da outra.
Talvez essa seja uma das competências fundamentais desta geração.
O algoritmo nos conhece
Durante anos ensinamos às máquinas aquilo que captura nossa atenção.
Agora começamos a ensinar nossos projetos.
Nossos problemas.
Nossas dúvidas.
Nossas empresas.
Nossos objetivos.
Talvez até nossos sonhos.
Isso pode produzir uma extraordinária expansão da capacidade humana.
Também pode criar formas de dependência que ainda estamos aprendendo a reconhecer.
Nenhum desses futuros está completamente escrito.
Tecnologia não elimina escolha.
Ela aumenta o alcance das escolhas que fazemos.
Por isso, diante da pergunta “O que a inteligência artificial fará?”, talvez devamos responder com outra:
O que permitiremos que ela faça conosco?
O algoritmo já aprendeu muito sobre nós.
A inteligência artificial aprenderá ainda mais.
Resta saber se, enquanto construímos máquinas cada vez melhores em nos compreender, teremos a mesma disposição para compreender aquilo em que nós próprios estamos nos transformando.
Porque talvez a questão mais importante da era da inteligência artificial não seja se a máquina conseguirá conhecer o ser humano.
É se o ser humano continuará conhecendo a si mesmo.
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