- o “livro-caixa” vira ledger distribuído;
- o carimbo cartorial vira hash criptográfico;
- o carimbo de tempo vira timestamp imutável em bloco.
Tecnomimeticamente:
- o blockchain imita a necessidade humana de confiança, prova e memória institucional;
- e, ao mesmo tempo, reorganiza essas necessidades segundo a lógica da rede, do consenso e do código.
2.2 Organizações que imitam o blockchain
O movimento inverso também ocorre: empresas e entes públicos passam a imitar a lógica do blockchain, mesmo quando não o usam diretamente:
- processualização em cadeias rastreáveis;
- exigência de logs imutáveis;
- cultura de “transparência por padrão”;
- desenho de fluxos que se comportam como smart contracts sociais (se A ocorre, então B é automaticamente disparado, sem espaço para decisão discricionária individual).
A Tecnomimética lê isso como co-imitação: o blockchain é desenhado para resolver problemas humanos de confiança e registro; em resposta, os humanos reconfiguram suas instituições para se tornarem mais “compatíveis” com a lógica de registro distribuído.
3. Blockchain, Sociedade e Governança: promessas e aderências
Transparência radical e auditabilidade: o sonho de uma gestão pública verificável. Crédito: Unsplash.
3.1 Transparência radical e auditabilidade em tempo quase real
Em governança pública, organismos como Banco Mundial e OCDE vêm apontando o potencial do blockchain para:
- registrar gastos públicos em redes imutáveis (WORLD BANK, 2017);
- permitir que cidadãos, imprensa e órgãos de controle auditem em tempo quase real despesas, contratos e transferências;
- reduzir o espaço para manipulação posterior de dados contábeis.
Do ponto de vista tecnomimético, isso representa a externalização da memória do Estado em uma infraestrutura técnico-distribuída, transformando a noção de arquivo público — de algo localizado em repartições para algo distribuído e verificável.
3.2 Combate à corrupção e redução de oportunidades de fraude
A literatura sobre blockchain em anticorrupção (KASSAB et al., 2019; OECD, 2018) destaca:
- rastreabilidade de ponta a ponta em cadeias de suprimentos;
- uso de smart contracts em licitações, com regras claras e execuções automatizadas;
- dificuldade de “apagar rastros” de transações uma vez registradas.
Aqui, o blockchain imita o ideal normativo de uma gestão pública: regras claras, igualdade de acesso, registros completos e baixa dependência de decisões opacas. Em troca, o Estado é levado a reorganizar práticas internas — padronização de dados, revisão de fluxos e redução de zonas cinzentas de decisão.
3.3 Eficiência administrativa e redução de intermediários
Ao automatizar verificações e execuções (pagamentos, liberação de benefícios, atualização de cadastros), o blockchain pode:
- reduzir custos transacionais;
- minimizar o papel de intermediários que apenas “carimbam” processos;
- encurtar a distância entre decisão política e execução administrativa.
Tecnomimeticamente, o Estado imita a lógica do smart contract: se as condições estão satisfeitas, a ação é executada — diminuindo arbitrariedade, atrasos e barganhas.
4. Riscos e limites: uma leitura tecnomimética crítica
4.1 Imutabilidade e a questão da correção de injustiças
A imutabilidade, vista como virtude técnica, tem um lado problemático: erros, fraudes iniciais ou decisões injustas podem ficar permanentemente registrados; corrigir um ato pode exigir novos registros, em vez de “apagar” o anterior.
Há o risco de um Estado-Algoritmo rigidificado: “o sistema já registrou, não há o que fazer” pode substituir a análise contextual e o juízo ético.
4.2 Desigualdade de acesso e assimetria cognitiva
O domínio técnico de blockchain é restrito. Se a infraestrutura de governança se torna muito dependente de blockchains complexos:
- quem entende e controla o código ganha poder desproporcional;
- cidadãos comuns podem ficar reduzidos a meros “usuários da camada de interface”, sem compreensão do que está em jogo.
A Tecnomimética alerta para um novo tipo de centralização cognitiva em nome da descentralização técnica: poucos sujeitos passam a mediar o entendimento de um sistema que, em tese, é distribuído.
4.3 Tecnocracia e fetichização do código
Há o risco de se imaginar que “se está no blockchain, é verdadeiro” ou “se o smart contract executou, é justo”. Isso é tecnomimeticamente perigoso porque:
- substitui deliberação política e ética por mera execução técnica;
- naturaliza escolhas políticas embutidas no código (quem define as regras do contrato? quem escolhe quais dados serão registrados?).
O blockchain, como qualquer artefato sociotécnico, não é neutro. Ele incorpora interesses, visões de mundo e modelos de governança que precisam ser discutidos politicamente (LESSIG, 1999).
5. Entre empresas e Estado: gestão digital tecnomimética com blockchain
Governança corporativa, compliance e rastreabilidade. Crédito: Unsplash.
5.1 Empresas: governança corporativa e compliance
Na gestão digital de empresas, o blockchain vem sendo explorado para:
- trilhas de auditoria internas;
- gestão de cadeias de suprimento (supply chain) com rastreabilidade total;
- registros de decisões de conselho, votos e participação societária (WUST; GERVAIS, 2018).
Tecnomimeticamente, a empresa imita a lógica do ledger distribuído ao buscar ser mais rastreável e auditável internamente; funcionários e gestores passam a operar em um ambiente de menos opacidade e mais responsabilidade, já que “tudo fica registrado”.
5.2 Entes públicos: do cartório ao registro distribuído
No setor público, o blockchain toca diretamente práticas históricas de cartórios, registros de propriedade, cadastros de programas sociais e contratos administrativos. O movimento tecnomimético é evidente:
- o blockchain imita o papel de cartórios e registros;
- cartórios e órgãos de registro passam a ser pressionados a se reorganizar — seja incorporando tecnologias distribuídas, seja oferecendo garantias adicionais que a tecnologia, por si só, não supre (mediação de conflitos e interpretação).
6. Convergência conceitual: Tecnomimética, blockchain e Estado-Algoritmo
Articulando os conceitos:
- Co-imitação tecnomimética: humanos e instituições imitam a lógica de registros distribuídos e automação; sistemas de blockchain imitam práticas humanas de contabilidade, confiança e governança.
- Subjetividade algorítmica e institucional: gestores públicos e privados passam a se ver e a operar como nós em uma rede, orientados por fluxos, smart contracts e incentivos de consenso.
- Estado-Algoritmo: o Estado que governa por meio de algoritmos, modelos e registros distribuídos; o blockchain se torna um dos pilares infraestruturais dessa governança.
A Tecnomimética, nesse contexto, oferece um quadro para compreender como essa convergência se dá e intervir criticamente, para que blockchain e IA no setor público fortaleçam transparência, justiça e participação — e não apenas eficiência e controle.
7. Considerações finais
A aposta de que o blockchain pode resguardar empresas e o erário, aumentando eficiência e qualidade dos serviços, tem base em literatura emergente e em experimentos reais em diversos países. Porém, à luz da Tecnomimética, é fundamental:
- evitar tanto o entusiasmo acrítico quanto o ceticismo automático;
- reconhecer a co-imitação em curso entre instituições e tecnologias;
- desenhar implementações que combinem:
- transparência e auditabilidade,
- governança democrática do código,
- proteção de dados e direitos,
- capacidade de correção de injustiças.
“Blindar o dinheiro público não é apenas uma questão técnica — é um pacto sociotécnico que exige código auditável, instituições atentas e cidadãos críticos.”
Na próxima etapa, essa discussão poderá ser traduzida em textos curtos para o blog, capazes de popularizar e aprofundar o tema junto a gestores, servidores, empreendedores e cidadãos interessados em entender o futuro da governança digital.
Referências
ANTONOPOULOS, Andreas M. Mastering Bitcoin: Unlocking Digital Cryptocurrencies. 2. ed. Sebastopol: O’Reilly, 2017.
BUTERIN, Vitalik. A Next-Generation Smart Contract and Decentralized Application Platform. Ethereum White Paper, 2014. Disponível em: https://ethereum.org.
EDELMAN, Ric. Criptomoedas: o guia definitivo para você descobrir o universo das criptomoedas e investir com sucesso. [Dados de edição a verificar].
KASSAB, Mohamad et al. Blockchain for Government: A Systematic Literature Review. IEEE Access, v. 7, p. 164.421–164.435, 2019.
LESSIG, Lawrence. Code and Other Laws of Cyberspace. New York: Basic Books, 1999.
NARAYANAN, Arvind et al. Bitcoin and Cryptocurrency Technologies: A Comprehensive Introduction. Princeton: Princeton University Press, 2016.
OECD. Blockchain and OECD Work on Innovation, Governance and Trust. Paris: OECD, 2018.
WORLD BANK. Distributed Ledger Technology and Blockchain: The Role of the World Bank Group in the Field. Washington, DC: World Bank, 2017.
WUST, Karl; GERVAIS, Arthur. Do You Need a Blockchain? In: 2018 Crypto Valley Conference on Blockchain Technology. IEEE, 2018. p. 45–54.
— Adriano Moitinho · TecnoMimética DigiTal —
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