Por Adriano Moitinho
Como é possível viver cercado pela revolução digital sem realmente participar dela
Há poucas décadas, reconhecer uma pessoa excluída do mundo digital era relativamente fácil.
Ela não tinha computador.
Não tinha internet.
Talvez não soubesse utilizar um caixa eletrônico.
Então alguma coisa mudou.
Os computadores ficaram menores.
A internet ficou mais barata.
Os celulares chegaram a bilhões de pessoas.
Depois vieram os smartphones.
Em poucos anos, uma parte significativa da humanidade passou a carregar no bolso uma máquina com acesso a uma quantidade de informação que nenhuma biblioteca da história poderia oferecer individualmente.
Parecia que a distância estava desaparecendo.
As pessoas finalmente haviam chegado à tecnologia.
Mas aconteceu algo estranho.
Chegar até a tecnologia não significava necessariamente entrar na transformação.
Dois comerciantes, o mesmo WhatsApp
Imagine dois pequenos empresários.
Os dois possuem smartphones.
Os dois utilizam WhatsApp.
Os dois atendem clientes pelo telefone.
Os dois recebem mensagens perguntando preço, disponibilidade e prazo.
Para o primeiro empresário, o WhatsApp apenas substituiu o telefone.
Ele recebe uma mensagem.
Interrompe o que está fazendo.
Responde.
Chega outra.
Responde novamente.
Um cliente pede orçamento.
Outro pergunta se o produto está disponível.
Um terceiro diz que vai pensar.
No final do dia, existem dezenas de conversas abertas.
Algumas vendas aconteceram.
Outras desapareceram no histórico.
Ninguém sabe exatamente quantas.
O segundo empresário utiliza exatamente o mesmo WhatsApp.
Mas há uma diferença.
Os contatos são organizados.
Os interessados são identificados.
Perguntas repetitivas podem ser respondidas automaticamente.
O histórico comercial é acompanhado.
Clientes que demonstraram interesse e desapareceram podem receber retorno.
A inteligência artificial ajuda a classificar, responder, resumir e organizar informações.
Os dois empresários possuem a mesma tecnologia no bolso.
Mas apenas um deles começou a transformar a tecnologia em capacidade empresarial.
O outro está conectado.
Trabalha todos os dias dentro do ambiente digital.
Pode até passar horas nele.
E ainda assim permanece...
ao lado e à margem.
Durante muito tempo confundimos acesso com inclusão
Isso era compreensível.
Quando poucas pessoas possuíam computadores, ter um computador representava uma enorme vantagem.
Quando poucas casas tinham internet, estar conectado fazia diferença.
Quando vender pela internet era novidade, simplesmente possuir um site podia colocar uma empresa à frente dos concorrentes.
Mas tecnologias amadurecem.
Aquilo que ontem diferenciava torna-se comum.
Hoje, possuir um smartphone não torna ninguém digitalmente avançado.
Ter Instagram não torna uma empresa digital.
Ter WhatsApp Business não torna um negócio automatizado.
E utilizar inteligência artificial não significa necessariamente compreender a transformação provocada pela inteligência artificial.
A fronteira mudou.
Talvez estejamos entrando em uma época na qual a nova exclusão digital não será definida simplesmente por quem possui acesso à tecnologia.
Será definida também por quem consegue transformá-la em capacidade.
Dois profissionais, a mesma inteligência artificial
Imagine agora dois profissionais.
Ambos descobriram uma ferramenta de inteligência artificial.
O primeiro escreve:
“Faça um texto para meu cliente.”
A máquina escreve.
Ele copia.
Envia.
No dia seguinte, pede outra coisa.
“Faça uma legenda para Instagram.”
A máquina escreve.
Ele copia.
Publica.
A inteligência artificial tornou algumas tarefas mais rápidas.
Isso já possui valor.
Mas o segundo profissional faz perguntas diferentes.
Ele apresenta seu processo comercial.
Mostra documentos.
Explica seus objetivos.
Descreve os gargalos.
Pede que a IA encontre padrões.
Questiona procedimentos.
Compara alternativas.
Cria rotinas.
Automatiza tarefas repetitivas.
Constrói uma base de conhecimento.
Integra a inteligência artificial à maneira como trabalha.
Os dois possuem acesso à mesma revolução tecnológica.
Mas estão fazendo coisas profundamente diferentes com ela.
Um utiliza inteligência artificial para executar tarefas antigas mais rapidamente.
O outro começa a utilizá-la para descobrir novas maneiras de trabalhar.
Essa diferença parece pequena.
No começo.
Pequenas diferenças tornam-se grandes distâncias
É assim que muitas transformações econômicas acontecem.
Não existe necessariamente um dia em que o mundo antigo termina e o novo começa.
A loja continua abrindo.
O telefone continua tocando.
O profissional continua recebendo clientes.
O funcionário continua executando suas tarefas.
Tudo parece normal.
Enquanto isso, pequenas diferenças começam a se acumular.
Uma empresa responde em segundos aquilo que outra leva horas para responder.
Um profissional produz em uma manhã aquilo que outro leva um dia inteiro para concluir.
Um negócio acompanha centenas de oportunidades que antes se perderiam em conversas esquecidas.
Alguém transforma conhecimento em produto digital e deixa de depender exclusivamente das horas disponíveis no próprio dia.
Separadamente, nenhuma dessas vantagens parece revolucionária.
Somadas durante meses e anos, podem produzir uma distância enorme.
E existe algo particularmente perigoso nisso.
Quem está ficando para trás nem sempre percebe.
Porque continua trabalhando.
Continua conectado.
Continua usando tecnologia.
Talvez utilize até as mesmas ferramentas de quem está avançando.
O jovem que passa oito horas por dia no mundo digital
Existe outro paradoxo.
Nunca tivemos uma geração tão familiarizada com telas.
Uma pessoa pode acordar e olhar o smartphone antes mesmo de sair da cama.
Assistir vídeos.
Conversar.
Pesquisar.
Jogar.
Publicar.
Comprar.
Ouvir música.
Acompanhar notícias.
Passar cinco, seis ou oito horas dentro de plataformas digitais.
Seria natural concluir que essa pessoa está profundamente integrada à transformação digital.
Talvez esteja.
Talvez não.
Porque existe uma diferença entre estar inserido no consumo digital e participar da economia digital.
Uma pessoa pode consumir milhares de horas de conteúdo sem produzir conhecimento.
Pode possuir milhares de seguidores sem construir um ativo econômico.
Pode conhecer todas as tendências de uma plataforma sem desenvolver uma competência profissional relevante.
Pode utilizar diariamente algumas das tecnologias mais sofisticadas já criadas pela humanidade e continuar utilizando-as quase exclusivamente para entretenimento.
Nunca esteve tão perto da tecnologia.
E talvez nunca tenha percebido que proximidade não significa participação.
A tecnologia pode mudar sem que nós mudemos
Esse é um dos aspectos mais interessantes da transformação digital.
Podemos trocar todas as ferramentas e preservar exatamente a mesma mentalidade.
O papel vira PDF.
O balcão vira WhatsApp.
A agenda vira aplicativo.
A reunião vira videoconferência.
O formulário vira página na internet.
A planilha vai para a nuvem.
Tudo mudou.
E, em certo sentido, nada mudou.
Os mesmos gargalos continuam existindo.
As mesmas informações continuam perdidas.
Os mesmos clientes continuam sem acompanhamento.
As mesmas decisões continuam sendo tomadas sem dados.
Os mesmos processos ruins apenas ganharam telas novas.
Isso é digitalização.
Transformação é outra coisa.
Transformação acontece quando a tecnologia modifica aquilo que somos capazes de fazer.
A pergunta errada
Por isso talvez estejamos fazendo perguntas erradas.
“Qual inteligência artificial devo usar?”
“Qual aplicativo devo instalar?”
“Qual plataforma está crescendo?”
“Qual automação devo contratar?”
São perguntas legítimas.
Mas existe uma pergunta anterior.
O que você pretende se tornar capaz de fazer?
Essa pergunta muda tudo.
Porque ferramentas desaparecem.
Empresas são compradas.
Plataformas perdem relevância.
Modelos de inteligência artificial são superados.
Aquilo que hoje parece indispensável pode parecer rudimentar daqui a poucos anos.
Quem constrói sua vantagem apenas sobre uma ferramenta precisa recomeçar quando a ferramenta muda.
Quem desenvolve capacidade de aprender, adaptar processos, compreender problemas e combinar conhecimento humano com tecnologia consegue atravessar várias gerações de ferramentas.
É por isso que transformação digital não pode ser reduzida a tecnologia.
Mentalidade Digital
Chamamos isso, na TecnoMimética, de Mentalidade Digital.
Não é fascínio por máquinas.
Não é utilizar todas as novidades.
Não é transformar cada processo em aplicativo.
Mentalidade Digital é a capacidade de olhar para uma tecnologia e perguntar:
O que agora se tornou possível que antes não era?
Às vezes a resposta será automação.
Às vezes será inteligência artificial.
Às vezes será integração.
Às vezes será simplesmente eliminar um processo que nunca deveria ter existido.
A ferramenta importa.
Mas a capacidade de perceber possibilidades importa mais.
Porque duas pessoas podem receber exatamente a mesma tecnologia e construir futuros completamente diferentes com ela.
E agora todos terão inteligência artificial
Essa talvez seja a próxima grande ilusão.
Hoje ainda dizemos:
“Eu uso IA.”
Em pouco tempo, essa frase poderá parecer tão estranha quanto alguém dizer:
“Eu uso internet.”
Naturalmente usa.
A inteligência artificial tende a desaparecer dentro dos produtos, sistemas, telefones, automóveis, empresas e processos cotidianos.
Todos terão alguma forma de acesso.
E então a vantagem deixará de ser simplesmente possuir inteligência artificial.
A diferença estará naquilo que cada pessoa, profissional ou empresa consegue fazer com ela.
Um terá uma ferramenta.
Outro terá um sistema.
Um pedirá respostas.
Outro construirá processos.
Um economizará alguns minutos.
Outro multiplicará capacidade.
Mesma tecnologia.
Resultados diferentes.
Talvez esta seja a nova margem
Durante muito tempo, imaginamos a margem como um lugar distante da tecnologia.
Talvez precisemos atualizar essa imagem.
O novo excluído digital pode ter internet rápida.
Pode possuir um smartphone caro.
Pode utilizar redes sociais.
Pode pagar uma assinatura de inteligência artificial.
Pode acompanhar diariamente as novidades do setor.
E ainda assim continuar utilizando as tecnologias do futuro para reproduzir os hábitos do passado.
Essa talvez seja a forma mais silenciosa de exclusão.
Porque ela não parece exclusão.
Parece participação.
Estamos conectados.
Informados.
Cercados por máquinas extraordinárias.
Assistimos à revolução acontecer a centímetros dos nossos olhos.
E justamente por estarmos tão perto podemos não perceber nossa própria distância.
Talvez o maior risco desta transformação não seja ficar para trás.
É acompanhar tudo.
Experimentar todas as ferramentas.
Conhecer todas as novidades.
Assistir ao mundo mudar diante de nós.
E descobrir, tarde demais, que estivemos o tempo inteiro...
ao lado e à margem.
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